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O Próximo Degrau

O dinheiro que sobra precisa de destino, não só de origem

Dinheiro, 24/09/2026

O extrato da empresa mostra caixa positivo há seis meses seguidos. A distribuição aos sócios continua em zero, porque ninguém decidiu se aquele dinheiro é reserva, é capital de giro futuro ou é lucro, disponível para sair. O contador registra o saldo, o dono confere pelo aplicativo do banco e os dois números batem certinho. O que não bate é a pergunta seguinte, mais óbvia do que parece: para onde vai esse dinheiro quando ele chega? Ninguém fez essa pergunta em voz alta, então o saldo só cresce, guardado em uma conta que rende menos do que a própria empresa rende operando.

O motivo pelo qual esse saldo não vira decisão tem explicação mecânica, não falta de atenção do dono. Toda métrica de gestão tem um responsável, do vendedor que cuida da meta ao gerente que cuida do ponto de equilíbrio, e cada um sabe o número que precisa bater. O caixa que sobra não tem esse dono, porque é resíduo do que já aconteceu, sem meta definida por ninguém. Enquanto a dívida está em dia e a folha sai no quinto dia útil, aquele saldo parece um problema resolvido só por existir. Só que dinheiro parado também custa, ele deixa de render o que a própria operação da empresa rende, ou o que renderia se fosse usado para quitar uma dívida cara ou ampliar uma linha de produção represada. Esse custo não aparece em relatório algum, porque nenhuma despesa foi lançada, apenas uma oportunidade passou sem registro contábil e a empresa pode operar anos sem perceber quanto perdeu por não decidir.

Aswath Damodaran, professor de finanças corporativas na NYU Stern, resume finanças corporativas em três decisões, a de investimento, a de financiamento e a do que sobra. A primeira decide onde aplicar capital que renda acima do custo de capital da empresa. A segunda decide a mistura entre dívida e recursos próprios que financia a operação. A terceira, a que a maioria dos donos nunca formaliza, decide o destino do caixa que não encontrou projeto capaz de superar aquele custo mínimo. Nesse caso, segundo Damodaran, o dinheiro pertence ao dono e represá-lo dentro da empresa sem um projeto que o justifique é decisão tão real quanto reinvestir, só que tomada por omissão. A régua que ele propõe é simples de enunciar e rara de aplicar. Todo real que sobra depois do investimento com retorno comprovado merece destino declarado dentro de um prazo definido. Represado sem esse prazo, o caixa vira reserva permanente por padrão, sem nenhuma decisão ter sido tomada de fato.

Só apareceu quando comparamos, mês a mês, o caixa disponível de uma metalúrgica com o retorno que esse saldo rendia parado em uma aplicação conservadora. O caixa vinha crescendo havia dois anos, depois de uma renegociação de prazo com fornecedores. Ninguém tinha decidido o que fazer com aquele excedente, e ele seguia ali, rendendo menos da metade do que a própria operação rendia sobre capital investido em capacidade nova. Criamos com a diretoria um critério simples, todo saldo acima de três meses de despesa fixa e sem uso definido em sessenta dias teria destino obrigatório, quitar dívida cara, comprar equipamento com fila de encomenda represada ou distribuir aos sócios. No primeiro trimestre com o critério em vigor, a empresa destinou o equivalente a dois meses de faturamento a um equipamento parado por falta de capacidade, e o caixa ocioso nunca mais voltou ao patamar anterior.

Meia hora e três números. Primeiro, quanto está parado hoje na conta da empresa acima do que cobre a operação dos próximos noventa dias. Segundo, quanto essa sobra está rendendo, aplicada como está agora. Terceiro, qual é o retorno que a própria empresa consegue gerar quando investe em algo que já conhece, uma máquina, um estoque, a quitação de uma dívida cara. Se o terceiro número for maior que o segundo, e quase sempre é, esse dinheiro perde poder a cada mês que fica onde está. O destino final pode ficar para depois, definir o prazo já muda o quadro, trinta dias para levar à diretoria uma proposta de uso para o que sobra.

Semana passada o tema foi o orçamento que ninguém reabre depois de aprovado. Hoje o tema é o dinheiro que ninguém decide depois que sobra. Nos dois casos o número existia, estava correto e ficou parado por falta de alguém que voltasse a olhar para ele. Uma empresa que decide, com critério e prazo, o que fazer com o que sobra entra no próximo ciclo mais leve, com menos caixa ocioso e menos dívida em aberto. É esse hábito que separa quem administra dinheiro de quem apenas o guarda, seja qual for o tamanho do saldo.

Rodrigo F. Duque
Fundador, Vokse Partners